Aposentadoria na EJA: quando heróis silenciosos deixam as salas de aula — e o poder público insiste em virar as costas
- Isaque Pers
- 30 de set.
- 3 min de leitura
Homenagem e exemplo de dedicação
Se a aposentadoria de qualquer professor é um marco para a educação brasileira, quando se trata dos profissionais da Educação de Jovens e Adultos (EJA) o peso é ainda maior. Estes educadores carregam nas costas a missão de oferecer uma segunda chance a milhões de brasileiros que não concluíram seus estudos na idade regular.
A trajetória da professora Marina Jardim Spina - CMEJA de Jundiaí-SP - é símbolo disso: competente, dedicada e incansável, ela marcou a vida de inúmeros alunos ao longo de sua carreira. Ao se aposentar, deixa saudades não apenas em colegas e estudantes, mas na própria comunidade que testemunhou sua paixão pela educação. Marina representa milhares de docentes da EJA que, mesmo com pouco apoio institucional, transformam histórias de exclusão em oportunidades.
O papel da EJA e o abandono do poder público
Segundo dados do Censo Escolar, a EJA tem enfrentado queda nas matrículas, reflexo do desinteresse das políticas públicas em fortalecer esse segmento essencial. Enquanto milhões de brasileiros seguem sem escolaridade básica concluída, governos municipais, estaduais e federal mantêm baixa prioridade orçamentária e falta de campanhas de incentivo. Isso significa salas com menos alunos, estruturas precárias, jornadas cansativas e professores cada vez mais desmotivados.
A ausência de investimento na EJA é, na prática, um descaso com a população mais vulnerável — trabalhadores que deixaram a escola por necessidade, mulheres que interromperam os estudos para cuidar da família, idosos que buscam a alfabetização como realização pessoal.
Aposentadoria do professor: regras e dificuldades
Apesar da importância social da profissão, a aposentadoria no magistério tornou-se mais rígida após a Reforma da Previdência (2019). Hoje, professores precisam cumprir regras de transição complexas, pedágios e cálculos de benefício menos favoráveis. No caso da EJA, a realidade é ainda mais dura: muitas vezes, os docentes enfrentam turmas noturnas, salários mais baixos e menor reconhecimento institucional.
O futuro da profissão: alerta vermelho
Estudos do Anuário Brasileiro da Educação Básica e da CNTE mostram que:
O rendimento médio dos professores brasileiros é inferior ao de outros profissionais com diploma superior. Na EJA, os salários podem ser ainda menores devido a contratos temporários e descontinuidade de turmas.
A queda nas matrículas, somada à falta de incentivo para formação continuada, ameaça a existência de programas de EJA em vários estados.
O risco é claro: menos investimento significa menos professores, menos alunos atendidos e maior perpetuação da desigualdade educacional.
Descaso público que não pode continuar
É preciso denunciar: governos em todas as esferas não têm tratado a EJA com a prioridade que ela merece. Esse abandono atinge diretamente os professores, que se aposentam após décadas de dedicação sem a devida valorização financeira e emocional. Pior: ameaça o direito de milhões de brasileiros que dependem da EJA para conquistar cidadania plena.
Homenagem e chamado à ação
A aposentadoria da professora Marina Jardim Spina deve ser celebrada como vitória pessoal e coletiva, mas também como alerta: não podemos perder mais educadores da EJA sem garantir a continuidade e a valorização desse segmento.
Cada professor da EJA é um guardião da esperança. Quando se aposentam, levam consigo histórias de superação, resiliência e compromisso social. Cabe ao poder público assegurar que novos professores tenham condições dignas de trabalho, salários justos e uma aposentadoria respeitosa. O futuro do Brasil passa também pelas salas da EJA — e não há desenvolvimento possível sem justiça para quem educa.
Fontes:
INEP – Censo Escolar 2024 (dados sobre matrículas e professores).
Explicativo do INSS sobre aposentadoria do professor e regras de transição após a Reforma da Previdência.
Anuário Brasileiro da Educação Básica 2023/2024 – Todos Pela Educação.
Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE) – análises sobre desvalorização salarial e impactos previdenciários.







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