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Reforma administrativa mira servidores de base e poupa políticos: enquanto professores e médicos perdem direitos, privilégios no topo continuam intocados

  • Foto do escritor: Isaque Pers
    Isaque Pers
  • 25 de out.
  • 3 min de leitura

A tão falada reforma administrativa, que volta a ser discutida em Brasília, promete “modernizar o Estado” e “aumentar a eficiência” da máquina pública. Mas, na prática, a proposta — especialmente a PEC 32/2020 e seus desdobramentos mais recentes — desperta preocupações profundas entre servidores de baixo escalão, professores, médicos e outros profissionais essenciais.


Enquanto o discurso oficial fala em cortar custos e combater privilégios, os maiores beneficiados continuam sendo a classe política, que não é afetada pelas mudanças e mantém uma longa lista de regalias e benefícios financiados pelo contribuinte.



Uma reforma que começa por baixo — e não por onde deveria


Professores, enfermeiros, médicos e técnicos administrativos — justamente os que mantêm o serviço público funcionando nos postos de saúde, nas escolas e nos órgãos de atendimento à população — são os que mais temem as mudanças previstas.


A PEC 32, em vez de focar em cargos comissionados ou altos salários de cúpula, altera direitos de estabilidade, progressão e vínculo de servidores comuns, que já enfrentam condições precárias e salários defasados há anos.


Enquanto isso, parlamentares, ministros e juízes seguem preservando auxílios, aposentadorias especiais e verbas indenizatórias, o que gera indignação entre os servidores de base.


“O problema não está no professor que ganha R$ 3 mil por mês, nem no médico do SUS que trabalha 40 horas semanais. Está nos altos escalões, onde há sobreposição de cargos, benefícios e falta de transparência”, critica um estudo da Confederação dos Trabalhadores no Serviço Público Federal (Condsef).



Classe política não dá o exemplo


Antes de discutir uma reforma administrativa, seria necessário fazer uma verdadeira reforma política, que reduzisse o número de cargos de confiança, cortasse privilégios parlamentares e impusesse teto único para os salários públicos — o que não acontece.


Atualmente, o Brasil mantém:


  • Mais de 20 mil cargos comissionados federais, muitos de livre nomeação;


  • Auxílios diversos, como o auxílio-moradia e o reembolso de despesas parlamentares;


  • Verbas de gabinete e cotas partidárias que custam bilhões aos cofres públicos.


Mesmo assim, a reforma que o governo empurra não toca nesses pontos, e a narrativa de “enxugar a máquina” soa contraditória.

O próprio Ministério da Gestão e Inovação em Serviços Públicos (MGI) anunciou em 2024 a criação de uma comissão para revisar a estrutura administrativa da União — mas sem incluir o Legislativo ou o Judiciário. Isso reforça a percepção de que os políticos querem mais poder sobre o funcionalismo, não reduzir o peso do Estado.



Quem realmente sustenta o serviço público


A base da máquina pública é formada por professores, médicos, enfermeiros, policiais e técnicos, que garantem o funcionamento diário do país.


No caso da educação, por exemplo, os professores municipais e estaduais enfrentam salários baixos, turmas lotadas e carência de recursos, mas continuam sendo alvo de críticas injustas.


No SUS, médicos e enfermeiros trabalham em condições precárias, especialmente no interior, e sustentam o sistema de saúde que atende milhões de brasileiros.


Se a reforma administrativa retira estabilidade ou flexibiliza vínculos, corre-se o risco de politizar ainda mais as contratações e abrir espaço para indicações partidárias — algo que vai na contramão da eficiência e da ética pública.



Risco de “precarização” disfarçada de modernização


Organizações como a Condsef, a CNTE (Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação) e entidades médicas têm alertado que, sob o pretexto de “modernização”, o governo pode estar abrindo caminho para terceirizações e contratos precários dentro do próprio serviço público.


“O Estado não pode funcionar como uma empresa privada. A lógica do lucro não cabe na saúde, na educação e na segurança pública”, afirma a CNTE em nota técnica.

A estabilidade, segundo especialistas, não é privilégio, mas proteção do servidor contra perseguições políticas e garantia de continuidade dos serviços públicos, independentemente de quem esteja no poder.



Um caminho mais justo seria começar por cima


Antes de qualquer mudança estrutural, a sociedade espera que o exemplo venha de cima:


  • Reduzir verbas e auxílios parlamentares;


  • Extinguir aposentadorias especiais de ex-ocupantes de cargos políticos;


  • Limitar cargos comissionados e substituí-los por servidores concursados;


  • Estabelecer um teto único e respeitado para todos os poderes;


  • E só então, discutir novas regras para os demais servidores.


Sem isso, a “reforma administrativa” corre o risco de ser apenas mais uma manobra para concentrar poder político, em vez de corrigir distorções e melhorar o serviço ao cidadão.



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